segunda-feira, 20 de julho de 2009

Devaneio

Durante a noite nebulosa, ela aparece, a sombra de seu perfil desenhada nos cômodos - a ilusão, breve, desaparece, nos cantos só o cheiro e a sensação dos dedos perdidos pela maciez de seu cabelo. Se sonho fora me entorpeço e busco vivê-lo novamente. Distante, brinca de ser e estar. Só a nebulosa sabe que o sonho fora realidade.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Chanchada

severino e seu machado
passeia e corta
trabalho e comida
a manhã é fria
a noite é dura
duro mesmo é não comer
e o pão pela manhã
do café só o trago
se não aqui é na rua
quando dá toma pinga boa
na guela só a festa
e o dia ameno fica
de vez em quando
vem vizinha dormir junto
do frio ao quente e úmido
medo de severino é ficar só
e não ter mulé pra noite farrear

Homenagem à semana de 22

meu coração se enebria
com toda poesia
descaráda
amável
e mórbida
sem vez
fez-se
noite, grito e fúria
à liberdade
ser o que se é
sabendo de cada dor do passado
arregaçaram a ferida
dos calados encantos
poentes, contentes
destas palavras
o coro
dos violões
da voz lírica
do frenesi da juventude perfeita
aos vermes inóspitos
dos esquecidos

um suspiro
pela fome e o luxo
corado nas telas
moldado no barro
áspero da lucidez humana
do novo despertar
à loucura sã
de tempos calouros
sincera e ávida
à cor dos desejos
renovados, destacados
muda, molda, cria
no café com pão
ao meio dia
venero os amigos
fantasmas artistas

segunda-feira, 6 de julho de 2009

sem vez

as palavras que assombram
o semblante oculto
da mente despreparada
contempla o ódio e a ilusão
como mera verdade passageira
tudo é o não ser
inconstante da parábola
sem vez
sem dor

cála-te!

calmamente
chama
à fronte
a doçura
das belas
delicadas
sílabas
esculturas verbais
sem ação
só gesto.
dos pensamentos turvos
complexos.
sonoro


um
A

domingo, 28 de junho de 2009

lobohomem

As palavras esquecidas
soletradas por surdos
são gritos agudos
pedindo por liberdade
da própria palavra
do verbo, da gramática
ser por ser
não por existir
à noite
só a lua ouve
os berros dos lobos

Hisorinha da Chuva

chuva chora
dia e noite jorra
pétalas que chacoalham
no ar, no chão
triste o céu
ao olhar para a terra
mas não vê-la
sem seu amor

fita apenas as grades de concreto

então é quando o céu chora
sonhando, que suas pétalas
toquem o semblante
fazendo-a feliz
e com que nunca esqueça do seu amor.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Ainda sobre o suicídio literário

vago
olhar

c h e i o
d e

morte

sombrioesperaopróximo

s o p r o

deumaluz
inexistente

quinta-feira, 11 de junho de 2009

a palavra suicidou-se e dela restou apenas a sálvia queimada;


e os murmúrios
pelos muros
pelos corredores...

fica o cheiro
da morte.

Fétido
enoja
consome
Não há luz que cure
a ira
que se alastra
como droga
percorre o sangue

corpóreo
afeta
coração
que mata e morre.

sábado, 9 de maio de 2009

das fotos
[antigas]
veio só o cheiro
dos momentos perdidos
em vermelho sangue
[os olhos padeceram]
gritar ao ar
o ódio do lamento
encanta
o vazio
é cheio de lembranças

quinta-feira, 30 de abril de 2009

urbano

Com a taça na mão, o brilho de seus dedos pode ser visto através do vinho e choca-se diretamente com o brilho da lua, quase até disputavam espaço no invólucro alcoólico.
Noturno pensamento que se concreta; as estrelas ainda estão longe, e o vento levemente balança a cortina e seus cabelos. A solidão é só uma escolha, ou quem sabe um destino. O que realmente importa é que ainda se vê o brilho que ofusca.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

passeio noturno


Analogia ao conto Passeio Noturno I de Rubem Fonseca
sob superfície
fica face
mascarada
fantasia ilustrada
vazia
[só mais um rosto sem cara]
fita o campo
semeio ao canto
doce bela donzela
arranca do cerne
fruto da terra
brinca e pinta
com cores e nuvens
do céu sem estrelas
num palco oco
da atriz sem platéia

brinco de cantar com as palavras que brincam de me enganar

domingo, 1 de março de 2009

buraco
calado
das palavras
miúdas
mudas